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segunda-feira, 26 de maio de 2008

La semana de vacaciones ou La vuelta a latinoamerica en un pliz-plaz


Semana de férias. Todos sentimos que precisamos de pausa. Trocamos destinos, impressões e comparamos itinerários. Uns vão para Mendoza, outros para Iguazú, outros para a Patagónia, outros para o Norte, para Córdoba.... e os Xurries, que não tinham ainda planeado muito bem a coisa,  lá se fueron pelos caminos de latino-américa...
O plano  ambicioso e irreal, mas os viajeritos eram optimistas e os trocadilhos com as palavras Atacama e Uyuni fizeram com que nada parecesse impossível para esta  dupla lusitana de Quixote e Dulcineia!!!

Apenas 19 horas de viagem e qualquer coisa como 1700 kms separam Buenos Aires de Salta. Este seria apenas apenas o início, a inauguração de uma longa escala de percursos e kilometragem a realizar. Muitas muitas horas de estrada...
Jantamos na Peña de Balderrama. Local nocturno salteño muito conhecido pelos grupos de música popular que o frequentam. Comemos locro, humitas e tamales muito bem acompanhados de um vinho Torrontés delicioso. O apresentador da Peña é uma figura inesquecível e caricata.

A fronteira da Argentina para o Chile é feita através do Paso do Jamal, que é uma espécie de terra de ninguém. Aproximadamente 100 kms separam a saída da fronteira argentina à entrada em território chileno. 
Nada. Absolutamente nada.Não existe nenhum elemento que possa provar a existência do Homem. Montanhas altas e deslumbrantes e áridas. Tudo à volta é excessivamente árido. 
É o deserto. Mais precisamente o Deserto de Atacama.

A chegada a San Pedro de Atacama reflete os efeitos secundários da altitude, qualquer coisita como 4800 metros. Para além do estômago se ter deslocado para o esófago, a cabeça insiste em explodir do corpo no meio das montanhas. Aterramos num outro país, com outro sotaque, outra moeda, outros costumes, outro humor, outro mundo...

Aqui tudo é extremo, as paisagens, as montanhas mas principalmente a temperatura. 
A diferença térmica existente por estas zonas chega a ter uma variação térmica de mais de 20 graus, que separam o dia o da noite. 
Apesar disso, os olhos viam coisas jamais vistas, viam pôres-do-sol nunca jamais contemplados..

.


A noite não podia ser mais perfeita (poder-se-ia até dizer radical..) e até houve tempo para fazer sand board no Valle de la Muerte ( espécie de surf nas enormes dunas atacameñas). E com uma lua abençoadamente cheia fomos conhecer o famoso  Valle de la Luna...

Menos perfeita e mais irregular  seria  o caminho de volta para a Argentina... pela Bolívia, portanto, através de Uyuni, onde estão as maiores salinas do Mundo.

D. Felix, condigno representante da Colque Tours e da mafia boliviana, vendeu-nos a excursão de três dias às Salinas passando por vários locais, que segundo ele, são paradisiácos e inesquecíveis. E de facto seriam inesquecíveis.... mas nem sempre pelos melhores motivos...

O que aconteceu durante os três dias da excursão foi de uma densidade física e emocional muito forte, por isso de difícil resumo e descrição.



 Três brasucas, dois portugas, uma alemã. Um 4x4 que não funciona por ignição mas por ligação directa, conduzido por um sujeito bem antipático e estranho de seu nome: Miguel.
Passado menos de uma hora rebenta a primeira de muitas discussões que se iriam suceder. Motivo: o grupo estava demasiado animado e cantava alegremente, assim que de forma completamente desproporcional e com uma total ausência de bons modos, o Miguel ordena agressivamente que nos calemos. Os ânimos exaltam-se e exigimos mudar de condutor. 
Mas estamos no deserto, sem qualquer forma de contactar com ninguém e destinados a passar 3 dias nas mãos desta criatura a quem o André, um dos brasucas, qualificava de esquizofrénico  (e atenção, não é exagero!!!)
E seria este  início atribulado que daria o "tom" a toda a viagem. 

A profunda antipatia do nosso guia-condutor, as muitas horas de viagem, o pouco espaço dividido por sete pessoas no 4x4 pelo deserto, a falta de banho, os graus negativos e dolorosamente frios, as sucessivas discussões e as escandalosas diferenças entre o folheto promocional impingido por D. Félix e realidade que nos era imposta, foram apenas alguns dos factores que conduziram a um cansaço e desgaste extremo.

Valeram-nos as paisagens, que de facto eram fabulosas, e os companheiros de viagem: a paciência da Monika e o humor contagiante e terno do Miller, do Filipe e do André.





Bolívia. 

Sem qualquer dúvida estamos noutro mundo. Os traços fisionómicos mudam completamente. Rostos morenos, índios, rudes, forte. Mulheres com longas tranças, com chapéus de coco e saias coloridas. 
Duros, densos e desconfiados, assim são os bolivianos do deserto. Acho que o clima e o meio ambiente determinam o seu carácter; não poderiam ser de outra maneira, caso contrário sucumbiriam às adversidades de um deserto árido e inóspito. 
Homens mascando folhas de coca ( principalmente lembro o velho da Atocha que tinha mais folhas que dentes dentro da boca..)
As crianças tem um olhar intenso e maduro. É o mesmo olhar que encontrei nos olhos das crianças em Moçambique, a quem a infância tinha sido roubada pela fome, pela pobreza e pela miséria.

Passagem pela Bolívia é acompanhada de uma sensação muito forte. 
È a luta pela sobrevivência. É o deserto.
Muito pó, muito frio, muito calor, 2o graus durante o dia , -5 graus de noite.
As temperaturas extremas também provocam humores extremos, que acolhem momentos de fragilidade, de desconfortos múltiplos, desprotecção e fadiga. 
O que também é completamente extremo e abusivo é a beleza desconcertante das paisagens deste país....





Odisseia igual a entrar na Bolívia, é sair da Bolívia.
Os horários dos transportes e a duração das viagens aqui são meras possibilidades especulativas.
É que existe um mundo reconhecível, meio-ocidental onde a comunicação, as telecomunicações e os transportes são um facto e outro em que tudo isso é pura ilusão e ficção. 

Perguntas como a que horas chega tal transporte, nunca me pareceram tão subjectivas e tão inúteis...  Não me lembro a quantas pessoas perguntei "a que horas sale el rapidito para Tupiza?", mas tenho a certeza de que não houve uma única resposta igual.

Os gritos e os pregões para os vários destinos na estação de autocarros de Uyuni, fazem com que a massa sonora seja impressionante e inaudível. Tentamos negociar quem nos leve a Tupiza. Dizem-nos que o mínimo são 10 pessoas. Juntamos as nossas vozes à massa sonora: "Tupiza!Tupiza!"

E assim fizemos os nossos primeiros amigos bolivianos: a Marcela e o Jorge, que também queriam ir para Tupiza. Mas eramos apenas 4...
Já completamente bebêdos de cansaço e num ataque imperialista e gringero, dizemos que pagaremos o equivalente a 8 pessoas!!!
Por esta altura, os reis del Mambo de Uyuni já esperavam qualquer coisa e coisa nehuma. Por isso não nos surpreendeu muito que depois de 1h à espera, o  choffer não tivesse chegado.



Bem, para tentar resumir, até porque o post já vai longo, o dia seguinte foi passado de rapidito e em 4x4, e por sua vez em omnibus e mais outro omnibus, para finalmente chegarmos à fronteira argentina; mais ou menos 24 horas de viagem para percorrer 800 kilométros!

O estado em que os dois viajeritos chegaram a Salta inspirava ao mesmo tempo piedade e riso.
Incapazes de apanhar outro micro de 24 horas para Buenos Aires, fomos directamente para o aeroporto de Salta, onde algo completamente inédito encerrava a nossa loca caminada; o aeroporto estava vazio!!! Vazio e às escuras. Apareceu segurança que nos informou que os funcionários só chegariam dentro de umas horas. 
E assim fizemos do aeroporto a nossa casa; tomamos banho, trocamos de roupa, organizamos mochilas, comemos, descansamos!
Lavadinhos e perfumados, monsieur Mota e madame Andrade iam recebendo as pessoas que começavam a chegar às instalações aeroportuárias transformadas em provisório lar!!

O regresso a Buenos Aires fez-se em uma hora e trinta minutos e nunca o tempo e o mundo moderno nos pareceu tão irreal e espantoso!






domingo, 27 de abril de 2008

Foi Bonita a Festa, pá!





Outono em Buenos Aires. 
Não parece porque faz muito calor mas sente-se o tempo a arrefecer. 
O Parque Lezama convoca um baile  de folhas secas e amareladas que esvoaçam em espiral pelo meio das árvores. 

É 25 de Abril. 
São nove da manhã e compro na florista o meu "sagrado" cravo vermelho, que orgulhosamente exibo pelo meio da agitada rotina matinal porteña.
Esteja onde estiver, acho que nunca conseguirei passar este dia "em branco", e levando esta ideia às últimas consequências resolvo convocar uma festa comemorativa da respectiva ocasião!

Como se sabe, o prazer que tenho em dar festas é mínimo e praticamente inexistente -  até porque, como diria o meu amigo Gui "não estamos aqui para nos divertir" - mas o meu espiríto de sacrificío é tão grande que cedo à ideia da festa! 

Atão era o dia 25 de abril e no 3ºB da Calle Defensa nº1763, houve festa e da "braba"!!
As pessoas iam chegando com bebida, boa disposição, instrumentos de música e cravos vermelhos. A casa ia enchendo-se de gente e convidava-se à festa, naquele que seria o 25 de abril mais multicultural da minha vida.



Argentinos, chilenos, espanhóis, italianos, mexicanos, franceses, holandeses, americanos.... 
Quase todos trouxeram cravos. Os que não conseguiram encontrar, fizeram cravos de papel!!! Não queria acreditar!
Festejaram e partilharam comigo um dia muito especial, e que possivelmente a eles lhes dizia muito pouco ou nada.  
Foi o seu carinho, afecto e entusiasmo que construiu a ponte que aproximou Latino América de Portugal (a tal ponte 25 de abril,quiças...).
A tantos mil quilómetros e tão perto! 
Esta sensação já tinha sido sentida outras vezes noutras ocasiões, o que só prova que o ditado está errado- longe da vista também pode estar perto do coração... muito perto... 

O Zeca canta-nos o Grândola, Vila Morena e um coro uníssono de vozes junta-se à voz dele e grita vário"viiinte cinco de abril siempre!!", que me emocionam e me fazem ficar com pele de galinha.

Cantou-se a L'Estaca, a Bella Ciao, La cucaracha, Hasta siempre, e outras músicas revolucionários de vários sítios do globo. 



O sector espanhol introduz uma música para cantar à desgarrada cujo estribilho era "La Tarara si, la Tarara no, la Tarara madre, que la canto yo!!" e que ficaria para a história como a música-top da festa e também de certa forma, a responsável pelo seu final.
Eram já duas e meia da manhã mas os animos estavam em alta, a música cantava-se num volume altissimo e quase gritado, acompanhado por patadas no chão que marcavam o tempo.
As consequências da vitalidade fiestera não se tardariam a sentir. 

Campaínha. Silêncio. É o vizinho do lado.
Diz-nos : "Che, que buena onda, pero es que tengo un niño pequeño"
Desfazemo-nos em desculpas e que iremos abrandar o barulho e música ao vivo. 
Para grande espanto e surpresa de todos responde-nos que não quer que paremos, que estava a gostar muito do que estava a ouvir. 
Imediamente convidamo-lo a juntar-se à festa. Hesita porque tem o filho pequeno em casa. Digo-lhe que pode trazê-lo e pô-lo a dormir no meu quarto (por onde aliás já tinha passado a filhota da Augustina). 
 - Che, qué buena onda es el vecino!!! - comentamos todos.

A presença portuguesa reforça-se com a chegada de 3 portugueses que se juntam à festa e que são calorosamente recebidos.
Chega a Karina, cantora porteña de fados e tangos e regala-nos um divino "Barco Negro"...



Novamente a campaínha. Novamente momento de suspensão. 
O vulto de um senhor pelos seus 40 anos, aparece-nos revoltadissímo por detrás da porta.
Olha incrédulo e desconcertado para a numerosa quantidade de pessoas que o fitam apreensivas. Pergunta : 

- "Pero quien es el dueño...Donde está el dueño?"

Num tom acusatório que quase roça os maus modos, diz que não acredita como é possível que a raça humana consiga fazer tanto quilombo!!??
Claro que o pobre senhor tinha toda a razão, principalmente porque tinha que trabalhar no dia seguinte, mas a sua expressão de total e absoluta incompreensão e o seu ar atónito e perdido, tornou este momento no mais cómico-trágico da noite!

A festa ainda se prolongou até mais tarde mas sem cantigas, palmas e principalmente sem patadas no chão...!

No dia seguinte, ao pequeno-almoço, eu e a Sílvia (mi compañera de piso) voltamos a ter um ataque de riso quando nos lembramos da multidão descontrolada a cantar a Taranda golpeando o chão, e imaginamos a cara perturbada e assustada do vizinho de baixo, seguramente em pânico que o tecto lhe caía cima....





"Todas las voces todas
Todas las manos todas,
Toda la sangre puede 
ser canción en el viento
Canta conmigo canta, 
hermano americano
Libera tu esperanza 
con un grito en la voz"

                                      in Canción con Todos


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Noroeste Andino III




Província de Jujuy.
São muito poucos os kilómetros que separam a Argentina da Bolívia.
Iruya será provavelmente o último destino antes do regresso a Buenos Aires.
Os caminhos percorridos já contam com uma quilometragem razoável e as viagens dentro da viagem continuam a ser uma epopeia singular.

Os olhos estão em "modo observação" e procuram tudo absorver e registar. 
Aqui, no Noroeste Andino toda gente masca folhas de coca. Têm as gengivas muito inchadas e constato que um dentista aqui teria muito trabalhinho...

Também os cemitérios, apesar de obviamente não serem locais propriamente turísticos, chamam-me a atenção pelas cores...





Em Humauhaca apanho o micro para Iruya

Primeiro é preciso dizer que o caminho para Iruya é um não caminho.
São 3 horas para percorrer 60 kms e existem 2 autocarros por dia. 
O colectivo, qual todo-o-terreno, passa por estradas impossíveis, faz razias impressionantes às montanhas, passa por cima de rios, buracos, obstáculos, pelo meio das nuvens e desafia a gravidade.

O pôr-do-sol desenha com traço fino e perfeito as silhuetas das montanhas, das colinas e dos animais que prodigiosamente vivem nos seus cumes.
Flores amarelas, vermelhas, roxas e brancas rompem com a austeridade das montanhas. 
Até o Julio Iglésias argentino de terceira categoria, banda sonora do autocarro, me parece aceitável.



São sete da noite e começa a escurecer. O que antes era uma paisagem verde e florida rapidamente se começa a transformar em escuro, breu e nada.
Ao deslumbramento junta-se agora alguma inquietação, um nervoso miudinho.
Uma espécie de nó na garganta que se alastra até ao peito. 
Progressivamente aparece o receio, o temor, o medo e o pânico. Depois o medo estagnou e ficou só medo.
Sabia que ainda teria pela frente, pelo menos mais duas horas ( isto se conseguissémos chegar....  o que a desaustinada condução deste jujeño louco me fazia duvidar...).

O caminho para Iruya é um arrepiante caminho através do nada para chegar a parte nenhuma.

Subimos. Não sei a que altitude estamos mas sei que estamos cá em cima. Principalmente os meus ouvidos dizem-me que estamos muito alto.
A toda a velocidade, este velho autocarro passa empedrados, estradas estreitas, curvas muito apertadas, riachos, caminhos da Idade da Pedra, improváveis ladeiras...
Fecho os olhos.
A barriga também dá o seu alerta. Acho que pela primeira nesta viagem sinto medo.
Até considero que aqui a patanisca é meia destemida.... mas desta vez e falando em bom castelhano, está "cagada de miedo!".

E só me vinha à cabeça uma frase que o meu pai costuma repetir algumas vezes: " Deus proteje os audazes", mas na minha cabeça não soava como um provérbio, era um desejo, uma prece, uma súplica...

Noite cerrada. De vez em quando faço algumas investidas ao telemóvel para checkear horas.
Não se vê qualquer luz, nem nenhum sinal de proximidade com nada e muito menos qualquer vestígio de Iruya.
E enquanto a respiração se corta e o coração se acelera, a música que me fazem ouvir não podia ser menos consensual com o meu estado interior - o pimba do cantor romântico argentino,  que antes até passava despercebido, arranha os meus ouvidos com a seguinte letra " Ai mi amor, quedáte comigo como una cachorrita"....

Depois de duas horas de viagem, todos as partes e orgãos do meu corpo reclamam e gesticulam nervosas e exaustas: o esófago, a bacia, o estômago, os ouvidos, a bexiga...
E tenho sede, fome, frio e só me apetece gritar: " já não quero brincar mais.... quero a minha mãe e o meu pai!!". 
Mas estou sozinha, a 2500 kilometros de Buenos Aires e a 10 mil do meu país...

Depois do queixume infantil, vem o monólogo interior, o sub-texto auto-flagelador. Falo para mim, falo contra mim, com pensamentos num castelhano bem argentino:
- Porqué sós tan boluda, Cláudia??Que siempre te pasan estas cosas, y te pasan por colgada que eres!!Que no aprendes nunca chiquilla??
E desanco a meu lado aventureiro e às vezes tão irresponsável.

E já não sabia se o pior era o estar nas mãos deste desvairado condutor, qual Ayrton Senna dos pobres ou o suplício de ter de aguentar a música mais pirosa do mundo.
Isto para não falar da problemática seguinte que seria arranjar alojamento às 22h da noite numa terra de fim-de -mundo. Isto, claro... se chegassémos.... 

Quando o motorista resolve pôr ainda mais alto a música, conto até dez na esperança que isso acalme a minha fúria e o túmulto interior pronto a explodir.
"Maria era pobrecita.. sus padres le batian...".

Pois é...

"Tudo isto é triste, tudo isto existe.... tudo isto é Fado.....!"
Trulum Tum Tum.

Fim de linha.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Petrouhé, Petrouhé.. Osorno à vista!



Puerto Varas está longe de ser a cidadezinha de pescadores que nos falaram. Das duas uma: ou os pescadores de Puerto Varas enriqueceram muitíssimo e agora todos têm casas de luxo ou trata-se de uma estância veraneante onde a burguesia Santiaguina vem passar férias. E eu fico-me mais pela segunda hipotése.

Por essa razão decidimos escapulir-nos para outro lugar mais afastado da turba turística.

A caminho da Petrouhé, a paisagem e o número de casas por metro quadrado começa a alterar-se profundamente.
E ao entrar na baía de Petrouhé, recordo os versos desse grande cançonetista lusitano:

"Petrouhé, Petrouhé... Osorno à vista
Sou contrabandista de amor e saudade
E trago no peito a minha cidade...


Para além de tudo, Petrouhé está sob os domínios de um gigante, um gigante de fogo agora extinto: aqui repusa o vulcão Osorno.
Está muito sol, os caminhos não estão bem assinalados e os mapas não são grande espingarda, por isso perder-se ou enganar-se no trilho é algo muito comum. E... perdemo-nos, claro! E a caminhada de duas horas demorou seis. Quase que poderiámos estar dentro de um episódio do "Lost".





Se o seu fogo está extinto, já o mesmo não se poderá dizer da sua imensa beleza e encanto.
E começamos a subir para os seus braços...

A sensação de subir um vulcão é.... é de díficil descrição!
Ficámos enfeitiçadas, presas na teia do poderoso Osorno. Sem conseguir encontrar o caminho e sem conseguir sair daqui.



Rendidas e sem qualquer hipotése de fuga, fingimos perder o último micro para Puerto Varas, (onde, aliás tinham ficado todas as nossas coisas), ligamos para o hostel para fazer o choradinho das desgraças perdidas que não conseguiriam regressar hoje, e fizemos figas para conseguir um "poiso" para pernoitar.
Ficámos na casa de um dos guarda-parques, onde nos alugaram um quarto. O quarto em que ficámos era da sua filha e tinha nas paredes um poster do Papa e outro de um golfinho.
Procurei a relacção entre aquelas duas criaturas, uma em frente da outra, mas adormeci sem qualquer explicação plausível.

No dia seguinte acordar cedo e ir ver os Saltos de Petrouhé, cuja progenitora imaginei ser Iguaçu...


quinta-feira, 6 de março de 2008

Escala na Costa Atlântica



A paisagem muda. Estamos na província de Chubut, mais árida, mais desértica. A cor das montanhas passou de várias tonalidades de verde para se converter em planícies amareladas e infinitas.

07h da manhã - Chegada a Comodoro Rivadavia, a cidade do petróleo.

Um nascer-do-sol impressionante espera-nos no novo destino. Na verdade mais do que um destino, é uma escala. Com a luz do amanhacer, desvaneceria também a impactante magia daquele momento e esperava-me uma cidade feia, suja, industrial e pouco simpática.

Despeço-me do Pol. Na verdade é um "até já". Tenho a certeza que nos encontraremos noutra parte qualquer do planeta, como viajantes errantes que sorriem às coindências e aos encontros inesperados em lugares imprevisíveis. Há 10 dias que viajamos juntos.
Foi muito bom ter partilhado este início da minha viagem com ele. A convivência com o Pol é fácil, fluída e fraternal. E agora, também de forma fraternal divide comigo o seu Guia Lonely Planet Argentina.

Escapo o mais rapidamente que posso da cidade que cheira a petróleo e vou em direcção a Rada Tilly, visitar uma reserva de lobos marinhos.
Infelizmente a falta de bateria da máquina boicotou as expectativas de "roubar a alma" às centenas de lobos marinhos aqui estacionados.

Cada vez são mais os lobos que vem para este lugar em busca de alimento. O guia explica-me que é precisamente por isso que em mais ou menos 10 anos, a quantidade de lobos marinhos aumentou de 470 para 1700.

Estamos na Punta del Marqués - uma reserva de lobos marinhos.
Explica-me montes de coisas sobre os lobos, sobre o ciclo de reproduçao, hábitos e alimentação.
Explica-me que esta não é uma zona de reprodução, e que nessas zonas entre dezembro e janeiro, se pode ver uma grande concentração de lobos.

Quem chega primeiro à chamada zona de reprodução são os machos. Digamos que têm entre eles uma "pequena conversa" para ver quem fica com os melhores sítios (e por conseguinte com mais fêmeas). Quem diz "conversa", diz luta e das feias, de tal forma que é muito comum estarem todos cheios de feridas,com muitas mazelas e sem dentes.

Então chegam as fêmeas. Se os machos tem tendência em ir para longe do sítio onde nasceram, já as fêmeas tendem a regressar, para parir no sítio onde nasceram.
Durante este processo, os machos estao muitíssimo atentos para não perder as suas fêmeas, o seu harém de vista, porque à mínima distraçao, zás... vem outro macho e rapta a donzela!
O periódo de gestação das crias é de 9 meses. Quatro dias depois de terem parido, as lobas marinhas já estão fertéis outra vez.
Daí o atenção dos machos... Um dos maiores perigos são os lobos jovens que, ainda não conseguiram ganhar o seu espaço, mas andam com as hormonas em alta.
Estou impressionadissima com a espécie!!!
O guia conta-me que uma vez, um grupo de 300 lobos jovens juntaram-se e invadiram um dos ilhéus onde estavam machos, femêas e crias. Foi uma autêntica carnificina...mataram lobos, dizimaram as crias, raptaram fêmeas...( a que será que isto me lembra?.... a chegada dos Europeus às Américas?...)

Depois fala-me dos pinguins, dos elefantes marinhos.
Eu que sou uma leiga nestas coisas de ciências naturais e bio-diversidade faço muitas perguntas.

Eram apenas 5 kilométros da reserva até Rada Tilly e pensei que ir a pé constituiria um lindo passeio.
Não fossem seres simpáticos e misericordiosos como a Miriam e o Carlos a salvarem a
patanisca do pó e vento patagónico, ainda hoje estaria por ali.

À minha frente, um oceano familiar convida-se e apela a um mergulho.
O Atlântico! Aceno-vos deste outro lado.

Quando saí do mar não sabia se estava num deserto, se dentro de uma máquina secadora-centrifugadora.
Horas depois, sentada no bus, com o corpo e o cabelo cheio de pó, sal e areia, compreendi que a banhoca não tinha sido tão boa ideia como isso!!

Terra do Fogo, cá vamos nós!!!



Hasta siempre... Viajeros!





Na Casa del Viajero fala-se em várias línguas, de tudo e de nada , de filosofia gastronómica, de Epicuro e de Hedonismo.

A Natália é argentina porteña, o Pepe é napolitano, o Salvador é de Valência e o Alex é uma mistura de búlgaro com russo e é o que se pode chamar o verdadeiro patagónico (calça 48!!).
O Lévy é americano e vive aqui há dois meses, o Mico é filandês, a Muni alemã e a Anne também, a Heidi inglesa, o Pol catalão, a patanisca lusa e chegou hoje um casal suiço.
O Pepe diz que se vai embora amanhã. Todos tentámos convencê-lo a não ir.
Parece que vivemos aqui na cabana de madeira do Augustí desde sempre.
Por isso, o Pol brinca dizendo: "Tio, como es que te puedes ir? Si hace 10 años vivimos juntos?"

A sensação é similar na verdade. Parece que vivemos na cabanita do Augustí hace siglos.




Entre a preparação do jantar, o Pol saca do acordeão e no meio da cozinha rapidamente se cria um círculo danças europeias. Em amena cavaqueira decorre a noite e a madrugada.



Decidamente um sítio abençoado.



Ontem foi o dia da crise do viajante. Toda a gente perguntava a toda gente qual era a rota que iria seguir, transportes, combinações. As decisões eram urgentes porque havia o stress de já não haver bilhetes para o sítio desejado. A partir daqui quase toda a gente vai para sul, ou seja: via Rota 40 ou pelo litoral. A primeira decisão consiste em decidir a via e a segunda em arranjar as melhores conecções. De qualquer forma o viajante terá sempre pela frente uma grande estupada.

Sentada na esplanada da Heladaria Artesanal de El Bolsón, disfruto dos últimos minutos antes de continuar a minha odisseia para o sul do Sul.
Aqui neste sítio onde me apeteceu demorar uns dias, criar raízes e "chamar casa a esse lugar"...
Sair de El Bolsón custa. Custa porque ganhei uma família, porque a comunhão e a partilha é sempre algo especial, raro e único!

O Salvador e o Alex vêm despedir-se de nós. O Nahuel e o Augustí dizem-nos adeus.
Quando o táxi está quase a arrancar o Salvador grita:
- Chicos, no olvidarvos que podéis siempre volver a vuestra casa, a vuestra familia!
Obrigada Família Bolsonera!

A Natália vem ter conosco à estação. Diz que está nostálgica e que vai ter saudades nossas.
Dá-me um saco de sugus.
- Caramelitos para tu viaje!

Mais do que os sugus, é a doçura da Natália que me comove. Hasta pronto!
Abraço.


El Bolsón fica para trás . Para trás do autocarro.
Uma longa e exasperante viagem espera-me.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

À descoberta da Comarca Andina



Para ir para o Lago Puelo que está a 20 kms de El Bolsón, passa-se pelo Paralelo 42, onde acaba a província de Rio Negro e onde começa a de Chubut.

Do lago Puelo avista-se, e não muito longe, algo que já nos extremamente familiar: um glaciar. Ainda assim é incrivel e impressionante como pode ser que o calor imenso que se vive no lago possa conviver com os glaciares....

Já no dia seguinte a excursão ao Cajón Azul foi mais custosa: muita poeira, muito sol, muita subida. O protector solar e o pó formam no corpo uma capa pegajosa e melosa que faz com que a pele tenha difildade em respirar ( e eu própria!!).
Convenhamos que este grupio excursionistia tem muita boa onda mas é completamente destrambelhado e não teve em conta que o passeio coincidia com a hora de maior calor.

Depois de 15 kilometros neste registo e de subida íngreme pura e dura, paramos no rio.
Ahhhh.....aqui sim está-se bem!!!
Bem, na verdade a água está um gelo, o que já seria de imaginar uma vez que estamos a 7 kms de um glaciar. Ainda assim com o calor que está, a banhoca é imprencindível.
Passamos por uma ponte movediça, que tem mais de movediça do que de ponte, e enquanto atravesso cautelosamente a ponte à qual lhe falta já vários pedaços de madeira, penso nos filmes do Indiana Jones. E lembro-me que quando atravessavam uma ponte precária deste género, era certo e sabido que se partiria algum bocado de madeira, ficando a Indiana girl suspensa e em perigo! Como não me parece que haja aqui nenhum Dr. Jones para salvar a patanisca, mais vale ter muito cuidadinho....






Cansados e arrasados fizemos o caminho de volta. Para além disso, eu levava também na perna (mais exactamente na virilha) um recuerdo de uma vespa!

Apesar de ser um pueblito, El Bolsón tem muita e variada oferta.
A primeira experiência seria fazer um Banho de Gong, uma experiência esotérico-espiritual. O Banho de Gong é ua espécie de viagem sonora que faz com que o corpo e a mente atinjam um estado muito parecido de quando dormimos, e que nos leva à inconsciência e ao relaxamento total e absoluto.

A Feria dos Artesanos realiza-se 3 vezes por semana e é uma das maiores e mais importantes feiras da região.
Depois da visita pela Feria, pic-nic-amos no jardim, onde uma personagem saída não sei muito bem de que filme aparece-nos em forma de show. Frekeast show, mais exactamente.

A personagem teria cerca de 40 anos (pode ser menos.... mas nota-se que estranhas substâncias ingeridas em grande quantidade lhe tolheram um pouco as ideias). E começa, anunciando solenemente o nome da companhia:

- Circo-teatro-movie apresenta: El grande show de El Bolsón!
Oh my God, it's the end of the world!!! - evoca. E vários pinos seguidos.

(Tentar explicar como é a pronúncia deste ser a falar inglês é tem o mesmo grau de complexidade do que tentar traduzir a palavra "saudade" a qualquer estrangeiro.)

Avisa-nos logo que este é um dos melhores shows de El Bólson;
- El mío y el del francés -acrescenta.

À continuação anuncia:

- Ahora me voy a liberar en un movimeiento anti-global. Number 2: now I'm going to turn around like the crazy world !

E começa a mexer a barriga de uma forma frenética e de tal forma impressionante que parece que a barriga vai sair do corpo.

- Dio Santo... que schifo! - exclama o Pepe.

Ele é a personagem de El Bolsón.
De facto um dos melhores espectáculos que vi foi em El Bolsón mas obviamente não foi este. "Parece ser que me fue", um solo de clown concebido e interpretedo por Marina Ballestero.
Aquele tipo de espectáculo que gostaríamos de ter sido nós a fazê-lo. Lindo, poético, profundo.

- No lo puedo creer!!! El mundo es un pañuelo!"

(na língua de Camoes significaria que o "mundo é uma ervilha",ou seja é muito pequeno!)

Digo isto porque acabo de encontrar aqui em El Bolson, o Dario, um amigo argentino que conheci em Paris. Depois disso voltamos-nos a encontrar perto de Aurillac, num curso de clown e há três anos que não nos viámos. Abraço. Conta-me que está aqui porque amanhã vai fazer espectáculo, que a propósito decorre dentro da programação do Festival de Clown! Prometo-lhe que irei vê-lo.

Chamem-lhe coincidências...



A herança hippie no centro da comarca Andina faz-se sentir em pequenas coisas: minis-festas transe em bosques escondidos, beber cerveja artesanal, experimentar banhos de Gong e outras coisas que tal, casas que em vez de se chamarem Vivienda Hernandéz se chamam Navol Paoli.
Aqui onde o parque de automovéis é muito parecido com uma sucata... carros sem capot, sem mala de trás, sem nada... mas andam!!!Aqui onde se vive com calma e com buen rollo.

Hoje grande festa na casa dos viajeros. Organiza-se paella de verduras, tortilla de patatas, guacamole, pan tomaquét.





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Saindo de Néuquen, em direcção ao Sul!





Foto da Ruka - coordenação das Organizaçoes Mapuches em Néuquen




Eu e os meus companheiros de viagem: Pol, Joana (esq.) e Liliana (dta)


A Liliana recomenda-me paciência. Aliás tudo no Terminal de Autobus de Néuquen me pede paciência. Parece impossível sair daqui. Compramos os bilhetes para um colectivo que iria para o centro e que supostamente sairia dentro de 5 minutos. Passado 30 minutos voltamos ao lugar do crime, ou seja, onde tínhamos comprado los mal-paridos boletos.
Observamos incrédulos a conversa telefónica entre ele e o motorista:

- "Pero como es que no tienes nafta (gasolina) ? Hay aqui gente esperando, venite!"

Parece que o motorista não está para aí virado. Devolvem-nos o dinheiro e nova investida, desta vez para a fila de táxis. Alguém diz que o colectivo de Koko está a sair para o centro. Agitação, corrida para a fila dos bilhetes.

Depois de estarmos 1h30 à espera de algum meio de transporte que nos faça sair deste sitio, a disposição e a paciência já não é muita. A Joana grita com o senhor da segurança,que volta e meia nos diz ora para sair ora para entrar; eu tenho uma crise de riso que me leva ás lágrimas, o Pol está desesperado e a Liliana apática.
Néuquen como cidade não tem nada de especial. O guia Lonely Planet diz que a cidade serve apenas de ponte para a Patagónia. Ainda assim tivemos a sorte de apanhar as festas da cidade, com vários concertos e espectáculos por toda a avenida principal.

O momento mais interessante da passagem por esta cidade consitiria na visita a uma fábrica.
A FaSinPa - Fábrica sin patrón.



Talvez não seja a visita mais óbvia quando se está na Patagónia, mas a verdade é que é uma fábrica com muita história. Chamam-lha a Fábrica dos Trabalhadores, ou Zanon ou FasinPa.

Fundada em 1980 pelo empresário Zanon ( um dos 100 empresários mais ricos da Argentina) esta fábrica de cerâmica foi ocupada pelos trabalhores,quando Zanon em 2000 (um ano antes da crise argentina) resolve fechar a fábrica, justificando falência.
Hoje em dia constitui um modelo de gestão dos operários e funciona como cooperativa. No entanto foram (e são) muitas as dificuldades e confrontos que tiveram que passar.

Visitamos a fábrica e ouvimos a sua história na primeira pessoa: Hugo é um dos trabalhores que está na fábrica desde a ocupação e contam-nos das dificuldade nos primeiros tempos: a fome, a ausência de dinheiro para comprar matérias-prima, de falta de conhecimentos de gestão (principalmente de uma fábrica enorme como Zanon..). Conta-nos como a população e os presos de uma prisão atrás da fábrica lhes deram alimentos para que sobrvivessem, contam-nos os conflitos com na polícia.
Dos 230 trabalhadores que tinha a fábrica em 2001, hoje têm 470. Pablo tinha sido despedido em 1999 por Zanon e conta-nos que em 2003 recebe uma chamada da fábrica, que já funcionava sem patroes e com sistema de cooperativa, perguntam-lhe se quer voltar a trabalhar na fábrica.
Aceita, diz sorrindo. "Hasta hoy!"


Despedimos-nos de Néuquen. Vamos um pouco mais para sul: San Martin de los Andes.
Qualquer semelhança deste autocarro com o anterior é pura coincidência: sujo, desconfortável, sem comidinha nenhuma (nem sequer um copo de água...), o ar condicionado completamente descontrolado que saía de um quadrado mesmo por cima da minha cabeça e até cheiro a urina tinha.

San Martin de los Andes parece a Suiça. casinhas de madeira, lojas de chocolate, tudo muito lindo, muito limpinho...
Ao som de "Eu sei que eu vou te amar" conduzo o Clio que acábamos de alugar.
A banda sonora, cortesia da frequência FM, Lisboa-Patagónia."Sta lapido na bô". Nem longe, nem distância.

Cá fora a paisagem é uma massagem para os olhos, como diz o Pol.
E cá vamos nós, fazer La Ruta de los Siete Lagos!!





domingo, 17 de fevereiro de 2008

Rumo a Néuquen

Sei que me esperam catorze horas de viagem de Buenos Aires até Neuquen, mas estou optimista.

A verdade é que o conceito de "autocarro" que tem os argentinos é muito diferente do nosso. Para começar aqui chama-se micros e são de grande qualidade.
Os comboios são praticamente inexistentes já que a maioria das linhas férreas foram desactivadas porque reprentavam um serviço que o estado considerava demasiado caro. Assim que todas as viagens neste país que parece não ter fronteiras e não acabar nunca, se fazem de autocarros.
E devo dizer que a Continental Airlines teria muito a aprender com a Via Bariloche. Aliás todas as companhias de aviação do mundo teriam muito que aprender com as empresas de autocarros argentinas. Principalente na parte do cathering.
Falo este entusiasmo porque acabo de me deliciar com uma fantástica lasanha de carne e vegetais!

Ao meu lado viaja uma senhora com a filha que deve ter três ou quatros anos. Está excitadissíma com tudo: a almofadinha, a manta polar,o tabuleiro, os talheres, a salada fria, o pudim, la dulce de leche, os assentos que se inclinam e fazem quase uma cama. Eu estou muito mais excitada do que ela com todas estas novidades e comodidades, a única diferença é que estou caladita.

Depois da fantástica refeição reclinar a cadeira completamente e dormir enroladinha na manta.
(nota- as mantinhas polares são indispensáveis porque os argentinos tem uma relação doentia com os ares condicionados e faz un frio que te cagas no micro!)
Estou com um grande débito de horas de sono. Ontem insónias. Para além do mais, o hostel estava en fiesta! A Ludmila fazia anos e havia muita animação, cerveja, empanadas e argentinos e mexicanos que ocupavam um grande espaço sonoro. Saí à francesa da festa, porque quando tentei despedir-me, começaram a cantar, gritando: "que la portuguesa no se vaya!"

São 9h da manhã e estamos quase a chegar a Néuquen. Entro na mítica região patagónica.
Antes de apanhar o autocarro fui deixar algumas malas (tenho mesmo de aprender o conceito de travel light...) e beber um mate frio na casa da Maru, o meu anjo da guarda argentino. Está com um baralho de cartas osho-zen. Diz-me para tirar uma. A consciência. Está relacionada com viagens. Viagens do conhecido para o desconhecido, viagens do desconhecido ao incogniscível. Curioso...

Lá fora a paisagem desértica.
A menina que viaja ao meu lado começa a ficar impaciente. Eu também. Ela canta e eu escrevo.

O Pol está à minha espera na estação. Mesmo neste imenso país consigo sentir que o mundo é pequeno. É incrível reecontrar este meu amigo catalão aqui, na Patagónia! Sorrio com estas agradáveis coincidências da vida.
Explica-me que ele e a Joana estão à dois meses a viajar pela Argentina e que agora estão a ficar num centro de coordenação dos Mapuches de Néuquen. Houve festa ontem e quando chegamos todos estavam com cara de ressaca. Falam-nos do trabalho que realizam na defesa da cultura Mapuche, quase toda dizimada no secúlo XIX.

Oiço. Tento absorver tudo. É muita coisa, principalmente muita coisa nova.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Che Buenos Aires!!!

São duas da manhã, o corpo está podre, mas o entusiasmo e a intensidade de Buenos Aires não me deixa dormir. Por isso escrevo.

Acabei de chegar de una cenita em casa da Barbara, uma amiga da Maru.
A fluidez dos encontros e a boa onda das pessoas com que vou estando parecem abençoar-me.
A família da Barbara é divina, as histórias amorosas da Lucile, irmã da Maru, são empolgantes, e o Pedro, um brasileiro de São Paulo, e o Mariano vieram juntar-se à festa.
Estoy rebien! Soy una re-pelotuda! (...e divirto-me a repetir a gíria argentina, numa tentativa de ser menos gringa...)

Ontem estive até às tantas no hostel Che, que foi a casa da minha amiga Ilda, a falar com os seus amigos. Ildinha, mi amor, tenho a informar-te que todos te estrañan un montón e a Bea assim que viu disse-me " Tu di-le a tu amiga que estoy muy enojada con ella. Me ha dicho que volveria, la perra." Semeaste o teu amor e a tua generosidade também por esta terra! Por onde passas,a tua genuinidade marca quem te conheceu.

Sinto Buenos Aires de forma familiar e ao mesmo tempo intensa. Tudo é imenso, tudo é exagerado:a extenção das ruas, o mapa da cidade, as lojas, o calor,as avenidas, os autocarros, o trato afável das pessoas, como te respodem a uma pergunta tipo:
- "Que colectivo (entenda-se autocarro) pasa por Santelmo?",
- "Ahora me mataste!"

... é lindo e inarrável.

Amanhã acabar de tratar de coisas burocráticas e preparar tudo para ir Patagonear!!